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TU PELO MUNDO
ILHABELA
POR THIAGO SOUTO

Quando era jovem (faz tempo isso), eu tinha um sonho de visitar todas as praias do Litoral Paulista. Eu cheguei a comprar o Guia Quatro Rodas de Praias (nem sei se ainda existe isso, mas era uma publicação que mostrava rotas e citava um pequeno descritivo de cada praia do país) e ia dando check em cada praia que eu conhecia. Nunca consegui completar meu sonho, mas tenho um fascínio pelas praias de São Paulo, especialmente do Litoral Norte. E se vamos falar desta parte da nossa costa, não tem como não falar da joia da coroa: a Ilhabela.

Pois quem falar que Ilhabela não tem algo especial é um grande mentiroso. Acredito que por ser uma ilha, o que acaba dificultando um pouco o acesso, acabou reservando à cidade um ar mais pitoresco e conservando um pouco mais a natureza que ali é exuberante. Isso, aliado a algumas políticas de conservação, que variam de gestão para gestão, mas em um todo acabaram fazendo da ilha um lugar único.

Como chegar

Bom, se vamos falar do lugar, primeiro temos que falar de como chegar lá. Para nós que moramos aqui na Baixada Santista há basicamente um único caminho, a Rodovia Rio-Santos. Indo com o seu próprio veículo, chegando no Centro do São Sebastião você vai ter que pegar a balsa para Ilhabela. Geralmente (não sei agora em tempos de pandemia), a fila da balsa é algo que não é para os fracos. Então, recomendo que você “fure a fila” através do site da Dersa, pelo serviço Hora Marcada. Assim, você evita uma dor de cabeça bem grande. Além disso, vale a pena conferir quais os casos específicos têm preferência e não pegam fila. Outra opção, é ir de ônibus até São Sebastião e fazer a travessia como pedestre pela balsa. O único problema neste caso, será a sua locomoção na ilha, já que as praias ficam bem distantes umas das outras e dependendo de onde você for se acomodar, isso pode ser uma dor de cabeça. Mas há serviço de Über e táxi na Ilhabela, normalmente, além de ônibus circulares e jipes turísticos que podem te levar pra lá e pra cá.

As pessoas costumam dividir Ilhabela em três: Norte, Sul e Centro. As praias desta parte da ilha são acessadas facilmente pela estrada SP-131 que acompanha o litoral neste lado de Ilhabela. Mas vamos colocar uma quarta fatia nesta equação que são as praias da costa Leste da ilha, voltadas para o mar aberto e com acesso por trilha ou barco.  

Sul da Ilha

Vamos começar falando da porção Sul de Ilhabela. Talvez por estar mais próxima da balsa e oferecer uma boa infraestrutura de pousadas e restaurantes, esta parte da ilha acaba sendo bastante procurada pelos turistas. A menos de 2 km da balsa você já chega na Ilha das Cabras, um lugar excelente para mergulhar com snorkel e ver um monte de peixinhos coloridos. Aliás, se você não tem nenhum equipamento para mergulho, é muito fácil encontrar em qualquer lugar da ilha lugares alugando máscaras, respiradores e pés de pato. Seguindo a rota em direção ao sul da ilha, enfrentando subidas e descidas, você vai passar pela praia do Oscar e do Portinho, que são bem pequeninas, mas têm o seu charme. Principalmente a do Portinho, com uma pequena pracinha com uma capela. Na sequência, tem a Praia do Julião que é um excelente lugar para passar à espera do cair do sol. Lá tem um restaurante com o nome da praia que vale muito a pena conhecer. Mais a frente, a Praia da Feiticeira, que não possui quiosques, o que faz dela uma opção menos agitada. Principalmente em comparação com Praia Grande, que é onde o vuco-vuco acontece nessa parte da ilha. Mais aberta, com bares e restaurantes, além de quadras de esporte e uma igreja bem no meio dela. Ela disputa com a Praia Curral, que também é agitada, mas esta é um pouco mais “chique” por abrigar o disputado DPNY Beach Hotel & SPA. Mas se você não quer nada de agito, pode recorrer à Praia do Veloso, que geralmente é bem mais tranquila. E este é o lado Sul da Ilhabela. Da Ilha das Cabras até o Veloso, são 7 km. Dá pra fazer a pé ou até de bike (alguns trechos têm ciclovia), mas prepare as coxas e as panturrilhas, pois não é pra quem tá desacostumado.

Escultura de Gilmar Pinna
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Ilha das Cabras
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Praia da Feiticeira
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Centro da Ilha

Se você gosta de caminhar, a nossa dica são as praias do Centro da ilha. Do Perequê, primeira praia deste pedaço, até a Vila são apenas 4 km. E o relevo é bem mais tranquilo. As praias de água bem calma e sem ondas, em si não são o destaque desta região, apesar de oferecerem uma vista muito bonita do entardecer e de São Sebastião. Estas duas características (terreno menos acidentado e mar protegido) foi o motivo de que esta parte foi a primeira a ser ocupada. Por isso, não é incomum você encontrar casarões bem antigos como o Engenho D’Água, que dá nome a praia. Além disso, a Vila mesmo lembra as construções da época da colônia como as de Paraty e Búzios. Nesta região da ilha, o destaque fica por conta dos restaurantes, bares e lojinhas com artesanatos caiçara e de artistas da região. E as opções vão para todos os gostos e bolsos, desde restaurantes com cozinha autoral regional de preço justo, culinária internacional caríssima ou o hot dog prensadão na barraquinha da Vila. Muitos bares e restaurantes oferecem música ao vivo e vale a pena ficar perambulando de bar em bar até achar um com a sua cara. Uma dica legal é que na Vila é onde desembarcam os cruzeiros (o que não está rolando agora na pandemia), e eles chegam de manhã e vão embora próximo das 14h. Se você não gosta de muvuca, às vezes seria bom evitar esta faixa de horário quando for dia de cruzeiro.

Norte da Ilha

Agora vamos para o lado Norte da Ilha. Como está um pouco mais afastado da balsa, as praias aqui acabam sendo mais calmas que a parte sul, mas não menos bonitas (muitas vezes até mais). Da Vila até Jabaquara (última praia deste lado da ilha e acessível só por estrada de terra) são 14 km. Então, ir a pé já não é uma opção tão indicada para a maioria dos seres humanos. As primeiras praias se assemelham muito com as praias do Centro, com águas calmas e muitos barcos ancorados. A maioria delas são bem pequenas e algumas oferecem quiosques para quem quer tomar uma caipirinha curtindo a praia. A que se destaca neste começo é a Praia da Pedra do Sino, com suas águas bem calmas e um longo deck que dá acesso a algumas pedras, que quando recebem batidas, fazem som de sino. As praias seguintes, Ponta da Azeda e do Pinto, por causa de suas águas calmas e mais claras (estamos mais longe do porto de São Sebastião), oferecem um lugar especial para mergulho livre e para avistar uma grande quantidade de vida marinha. Conectada à Praia do Pinto por uma trilha beira mar está a Praia da Armação, que parece um cenário de novela. Barcos de pescadores, uma igrejinha de Nossa Senhora da Conceição e uma praia sombreada por árvores é um prato cheio para quem gosta de tirar fotos. E aqui acaba o asfalto na SP-131. Seguindo na estrada de terra, você chega à escondida Pacuíba, com sua praia de tombo, e mais adiante a exuberante Jabaquara, incrustada entre morros. Jabaquara é quase selvagem, mas ainda conta com infraestrutura e restaurante para atender quem gosta das benesses da vida civilizada.

A Vila
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Vista da Praia de Castelhanos
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Praia do Bonete
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Leste da Ilha

 

Agora, se você não quer nem saber de civilização ou até prefere distância dela, então a costa Leste é o destino certo para você. Aqui as praias só podem ser acessadas por trilha ou pelo mar (com exceção da Praia de Castelhanos, que pode ser visitada por veículos 4x4), o que evita o contato com aquele bicho irritante que é o ser humano e acaba deixando estas praias mais preservadas e selvagens. Além disso, por estarem viradas para o oceano, as praias recebem toda a força das ondas, o que espanta muita gente, mas atrai os surfistas. Mas vamos falar das praias. Por ser a mais fácil de chegar, Castelhanos é a mais procurada pelos turistas. Além disso, nela há uma pequena vila de pescadores e restaurantes. Também é possível visitar um mirante no canto direito da praia para avistar o coração formado pela faixa de areia. Quem visita Castelhanos pelo mar, invariavelmente acaba passando por prainhas como a da Fome e a Praia do Saco do Eustáquio, que valem dar uma paradinha. Além disso, de Castelhanos é possível acessar, através de trilha, as praias Mansa, Vermelha e da Figueira. O outro destaque da costa Leste é a Praia do Bonete, acessível de barco e por trilha. Aqui é para quem quer se isolar mesmo e pegar boas ondas. No Bonete também tem uma pequena queda d’água boa para tirar o sal depois de ir ao mar. Até nesse “fim do mundo” existem opções de hospedagem e restaurantes. Dali, você também pode conhecer a Praia da Enchova.

E se você não quer saber só de praia, Ilhabela oferece muito mais que isso. Ilhabela é a ilha brasileira com maior número de cachoeiras. São 360 quedas d’água, sendo 30 delas abertas ao público. Além disso, a natureza em Ilhabela é pulsante. A maior parte da ilha ainda é coberta por Mata Atlântica, fazendo dela um excelente lugar para fazer birdwatching, sendo ponto de avistamento de 66 espécies exclusivas do bioma (5 delas consideradas globalmente ameaçadas de extinção em 2015). E Ilhabela é um polo de esportes aquáticos. Além do surf, a ilha é um dos principais pontos de encontros de velejadores, realizando anualmente a Semana Vela, e um excelente lugar para mergulhadores com lajes, grutas e muitos (mesmo) naufrágios. Então, não faltam motivos para visitar a Ilhabela, só falta escolher um ou vários. Ah, mas só uma dica! Nunca, mas nunca mesmo, esqueça de passar óleo de citronela no corpo todo. Ilhabela é a casa dos borrachudos e não adianta nenhum outro repelente. Se não esquecer, sua viagem será perfeita!