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TU NO DIVÃ
DIA 31
POR LUÍZA CANATO

Pensar sobre a escrita desse texto tem me deixado ansiosa. É que esse ano eu perdi a poesia. O real veio como um desabamento. É assim que me sinto, sob os escombros de uma vida que se foi. Acredito e ouço nos atendimentos que realizo que esse é um sentimento compartilhado. O ano foi difícil nos mais variados aspectos.

Mas, é possível ouvir samba lá na frente?

 

Dia desses a Gá me pediu para dizer no rosto de quem a luz incide de uma forma mais bonita. Pensei em Caê, claro. Percebi que quase não consigo ver direito a luz batendo de uma forma muito linda em seu no rosto, estamos sempre tão grudados, a visão fica embaçada.

 

Eu perco a parte iluminada. Eu perco a parte iluminada de muito, por conta de toda tensão que me visita desde sempre, mas que esse ano fez morada permanente.

 

Comecei a reparar.

 

A claridade atravessa as frestas. O sol bate quentinho quando dou banho em meu filho no meio da tarde. A luz ilumina bonito o rosto do meu marido todas as noites. A minha mãe tem luz de dentro que brilha radiante. O Léo, eu vejo sempre à meia luz bem aconchegante.

Comecei a sentir.

 

Quero ressaltar a importância do cuidado com a saúde mental. Isso deveria ser um direito básico. Mas assim como tantas outras preocupações, acaba ficando para segundo plano. O meu trabalho é e continuará sendo esclarecer para as pessoas que o autocuidado é necessário.

 

Comecei a falar.

 

Tenho buscado, pessoalmente, entender a importância de nomear os sentimentos, da auto percepção e aceitação. E celebrar os encontros que acontecem a partir desse movimento.

 

Festejar.

 

Talvez essa seja a forma (um pouco torta, confesso!) que encontrei para olhar com carinho para todo o ano que passou. Não vai ter festa, mas talvez o samba toque, baixinho.

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