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TU NO DIVÃ
A VARANDA
MEU MUNDO
POR LUÍZA CANATO

Buscando fugir (ou anestesiar?) da dura realidade eu leio. Mas acontece que eu leio muito e leio tudo o tempo inteiro.

 

Na clínica, leio o mundo, leio o discurso do paciente através da tela, leio as dores e as suavidades da vida cotidiana.

 

Dessa forma, quase nunca relaxo. Não sei o que é “ficar de boa” há pelo menos uns 20 anos.

Me dói ler o mundo tão cruel.

 

Nessas andanças de leitura conheci Manoel e me encantei.

Manoel de Barros, poeta das pequenas coisas, escreve:

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas

mais que a dos mísseis.

Tenho em mim

esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância

de ser feliz por isso.

Meu quintal

É maior do que o mundo.

E para quem hoje, tem a varanda como maior espaço livre e seguro. Me inspiro em Manoel para olhar para o chão e perceber que perto de nós há muitos universos interessantes e belos. Me volto para ler o presente e sentir que estar aqui e agora é a maior benção.

Para as pessoas que assim como eu busca por pequenas e possíveis bonitezas indico o premiado documentário Só dez por cento é mentira (2008) mostra as várias infâncias do poeta, inclusive daquela que ele vivia no momento, a terceira infância, com pouco mais de setenta anos, até mais de oitenta. Nele, vemos alguns poemas de Barros entremeados com entrevistas de alguns leitores profundamente tocados e modificados pela poesia quase pueril do autor, além de depoimentos do próprio. A esposa de Barros diz, em entrevista, e é completamente compreensível, que mesmo àquela altura da vida, ela sentia muito ciúme do marido. Ela sabia, assim como sabem os leitores do poeta das verdades, que ele era um homem profundamente inteligente. Um tesouro que habitou a Terra. Afinal, só as pessoas inteligentes conseguem ver as preciosidades da vida sem se contaminarem pelos dissabores da sociedade.

© 2016 by Revista TU