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TU TEM O QUE FALAR
DA TERRA ARRASADA
POR BRUNO FRACCHIA

E se a fase roxa aplicada no Estado de São Paulo no momento mais dramático da pandemia de COVID-19 não durasse quinze dias, mas um ano? Não é que seu movimento, faturamento e jornada de trabalho diminuiriam bruscamente; eles seriam, simplesmente, zerados. Por mais de 365 dias, sem perspectiva concreta, neste momento, de uma retomada. Cenário de terra arrasada, não é mesmo? Pois bem. Esta é a realidade da maioria dos trabalhadores do teatro desde março de 2020.

 

Atores, diretores, bailarinos, cantores, maquiadores, produtores, técnicos, cenógrafos, figurinistas, contrarregras, bilheteiros, atendentes de cafés, seguranças e outros trabalhadores do setor, que, muitas vezes, são as pessoas responsáveis pelo sustento de suas famílias, literalmente, do dia para noite, tiveram seus ganhos zerados, voltando a morar com parentes e até mesmo passando a sobreviver graças à doação de cestas básicas (distribuídas em elogiável atuação do SATED-SP). A pandemia e a (necessária) ausência de público interferiram no setor criativo do teatro no que há de mais básico: a sobrevivência. 

Com vacina ou sem vacina, o distanciamento social é procedimento imprescindível no combate a COVID-19. No Brasil e no mundo, para a classe teatral isso significou falta de trabalho, de dinheiro. De comida. Uma situação que despertou em muitos insegurança, desânimo, bloqueio psicológico para criar projetos para concorrer em editais e limitações criativas. “Saco vazio não para em pé”, diz o velho ditado. E é um fato: você só consegue trabalhar, estudar ou criar arte com o mínimo de qualidade se estiver, pelo menos, bem alimentado. E quando se alimentar e habitar um teto se tornam preocupações primeiras, as possiblidades criativas artísticas diminuem consideravelmente. Na ausência de políticas públicas que apoiem um setor econômico que gera bilhões por ano ao país (empregando mais do que a indústria automobilística),  toda a criatividade de seus trabalhadores passa a ser direcionada à prática de outras ações que possam garantir um sustento mínimo. 

A classe teatral, por sua natureza, está acostumada a inventividade. O ser artístico criativo é necessário no desenvolvimento de obras com limitações financeiras, espaciais, físicas e na busca por respostas às inquietações e pesquisas estéticas. Neste sentido, a pandemia de COVID-19 levou ao desenvolvimento de novos formatos (em substituição aos modorrentos teatros filmados com uma câmera parada). Alimentada, a criatividade desembocou em potentes pesquisas de linguagens. Mas não podemos ignorar que, na maioria das vezes, estas pesquisas contemporâneas foram consequência da paixão e necessidades de fazer artístico que move a tantos e que tiveram o privilégio de recorrer a um suporte familiar e não correr riscos de fome ou de despejo.

Além disso, ainda que estas pesquisas tenham origem no fazer teatral e sejam feitas no palco por artistas teatrais, elas não são teatro. O teatro é a arte do encontro entre intérpretes e o público, sem intermediação de nenhum equipamento tecnológico. E esta arte, infelizmente, está silenciada há mais de um ano (ao contrário dos templos religiosos).

 

Mas, como tantas vezes na História, da terra arrasada brotarão flores. Tenho esperança que, em breve, o teatro documentará sua época e ajudará a nos reerguermos. Chegará o dia no qual aqueles que tiverem a sorte de sobreviver (como não falar em sorte no Brasil?) recuperarão esta arte do encontro e poderão exercer com dignidade seus respectivos ofícios teatrais.

QUEM É BRUNO FRACCHIA 

Bruno é bacharel em Artes Cênicas pela USP, é também mestrando e graduando em Letras pela mesma universidade. Ator há mais de 20 anos, é um dos criadores da telenovela Fina Estampa.

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