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TU ENTREVISTOU
FLAVIO HOPP

Conversamos com o Flavio Hopp, um fotógrafo que transita entre os campos de futebol e os grandes shows de bandas de rock. Falamos um pouco da carreira dele, dos cursos que ele ministra e das dificuldades que o setor da fotografia esportiva e de eventos está enfrentando com as medidas para conter a COVID-19.

TU - Como a fotografia entrou na sua vida e em qual momento você descobriu que seria fotógrafo profissional?

 

Flavio Hopp - Meu primeiro contato com a fotografia foi no Natal de 1976, quando eu tinha oito anos e ganhei do meu irmão a primeira câmera de presente. Era uma Kodak Tira Teima. Como ainda era muito jovem, e dependia dos outro para comprar filmes e revelar, usava mais quando ia viajar nas férias para registrar elas. Depois, no fim os anos 80 e começo dos 90, quando comecei a frequentar shows, comecei a registrar alguns que eu ia, principalmente do Explicit Repulsion, banda do meu irmão, e do Angel, que eu era roadie. Mas realmente, decidi ser um fotógrafo profissional em 1998, em um show de aniversário da 89 FM com o Raimundos, Helloween e Iron Maiden, onde tinha ganhado do Walcyr Chalas, da loja Woodstock em São Paulo, um crachá de imprensa. Ele me deu esse crachá porque eu fazia excursões para shows e sempre ia comprar os ingressos na loja dele. Ele não sabia que eu tinha como hobbie a fotografia. Foi mais por eu ser um cliente fiel e comprar ingressos há muitos anos com ele. Nessa época eu havia acabado de comprar uma Canon EOS 5000 e estava voltando a começar a fotografar. Quando recebi o crachá dele e vi que era de imprensa, levei minha câmera junto. Nunca havia fotografado um show nessa condição antes. Foi minha primeira vez em um pit e fiquei encantado.

TU - Você chegou a fazer cursos, escolas de fotografia?

 

FH - Eu aprendi quase tudo sozinho, lendo muito a Revista Fotografe Melhor e a Photos, mas em 2010 decidi fazer um curso na Escola Panamericana de Arte, com o intuito de melhorar. Porém, só consegui fazer o primeiro ano e tive que desistir. Em 2011, entrei na UNIP, mas o curso era muito fraco e abandonei no primeiro semestre. Mas me arrependo de não ter concluído, pois já perdi oportunidades de trabalho por não ter um curso completo mesmo com a minha experiência. Fora isso, fiz somente um curso de estúdio com o Sarquis, fotógrafo argentino residente em Santos.

TU - Atualmente você trabalha fotografando jogos de futebol. Como está para segurar as pontas das finanças com os campeonatos parados?

FH - Está muito complicado. Estou parado desde o dia 15 de março, onde fotografei o último jogo da Portuguesa Santista. Depois, parou tudo. No começo, me virei com o dinheiro que tinha guardado e de trabalhos que ainda tinha para receber, mas como essa pandemia se estendeu por mais tempo do que eu esperava, tive que procurar outras saídas. Então, resolvi começar a comercializar em meu site (flaviohopp.com) meus trabalhos em impressões fine art. Também repensei meus workshops de fotografia de shows e fotografia de futebol, que dava presencialmente, para o formato online. Em ambas as aulas, vou ensinar as pessoas a darem os primeiros passos nesses mercados de trabalho.

TU - Tu tem uma grande paixão pelo rock n’roll e fazia excursões para os shows de rock na capital. Assim como no cenário do futebol, tu conseguiu achar alguma alternativa para arrecadar algum dinheiro?

FH - A esperança é a venda do material fine art e as master class online que criei, mas também estou tentando vender vouchers de ensaios fotográficos, festas infantis e adultas. Fora isso, ainda estou buscando outras alternativas, procurando me reinventar.

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TU - Você é um torcedor do Palmeiras. Como é fotografar os jogos do Palmeiras, na Vila Belmiro, por exemplo, com a torcida ao redor, xingando o seu time? E quando acontece algum gol do Palmeiras, é difícil manter a linha e não comemorar?

FH - O primeiro jogo entre Santos x Palmeiras que fotografei foi em 2015 e era final de Copa do Brasil. Eu estava começando a fazer futebol na época. Lembro que esse dia estava chovendo e eu estava tão nervoso com a importância do jogo e de produzir um bom trabalho que não deu para pensar em torcer. Naquele dia, o Palmeiras perdeu por 1 x 0 e o Gabigol perdeu um pênalti bem do lado que eu estava fotografando. E no final, o Nilson perdeu um gol feito que fez a diferença no jogo de volta em São Paulo. Hoje em dia, já estou mais acostumado e já seguro as emoções com facilidade. Fico torcendo para que tenha gol do lado em que estou fotografando, mesmo que seja do arquirrival.

TU - Você está fazendo master class de fotografia de futebol e shows. Conte-nos como funciona, quando serão as turmas…

 

FH - mente não vou conseguir fazer como o presencial, pois neste havia a parte prática. Mas passarei também o caminho mais fácil para as pessoas que querem começar ter um resultado para chegar a fotografar dentro de um campo profissional, em uma jornada mais curta. Mas é bem semelhante ao de fotografia de shows no conteúdo, onde também falarei sobre equipamentos, clientes, como cobrar e configuração de câmeras...

TU - Já aconteceu do equipamento te deixar na mão em algum show ou jogo de futebol? Como você fez para trabalhar no dia?

FH - Infelizmente sim, mas como eu sempre tenho dois corpos de câmera, consegui me virar e continuar produzindo, pois se a câmera der algum problema e você tiver só uma já era seu dia. Já com lentes, você se vira. Como já tive que fazer em um show que estava fotografando e a minha 24-70mm, que é a que eu mais uso, deu problema na caixa de foco e tive que fazer o show inteiro apenas com uma 50mm e a 70-200mm As duas vezes que não tiveram jeito foi uma na semifinal da Copa do Brasil em 2015, onde meu notebook deu problema na tela no segundo tempo e não consegui editar e transmitir as fotos para a agência, e um jogo de amador, onde tive problema com um dos cartões que utilizei e perdi uma boa parte das fotos produzidas neste trabalho, pois não consegui recuperar de jeito nenhum as fotos. Então, o ideal é que você sempre tenha pelo menos dois corpos de câmera. Com lentes quando apresentam problemas é mais fácil você se virar.

TU - Aproveite e conte algum caso curioso que tenha acontecido em algum jogo de futebol e show.

FH - Em shows, estamos sempre sujeitos às vontades dos artistas e limitações de seus empresários. Tem alguns que não ligam muito e outros que complicam demais. E o fato mais curioso que aconteceu foi no Monsters of Rock de 2015. Liberaram apenas oito segundo para fotografarmos a performance. Imagina você fotografar apenas oito segundos de um show. Claro que rolou o maior boicote por parte da imprensa e quem apenas acabou registrando esse show foram os fotógrafos da produção do evento e de um colega meu que estava contratado pela banda. De resto, todos ficamos na sala de imprensa. Já no futebol, não sei se foi um fato curioso, mas um que me marcou foi em um jogo do Palmeiras x Santos, no Pacaembu, onde houve uma disputa de bola e os jogadores vieram escorregando pela linha de fundo em minha direção. Eu estava atrás da placa, mas ela era feita de plástico e o jogador do Palmeiras, que não me recordo qual foi, bateu na placa e meu joelho bateu na cabeça dele. E ele ficou nocauteado no chão.

 

TU - Tu é um cara grande. Quando fica no cercadinho dos fotógrafos, em shows, o público costuma pegar no seu pé?

FH - Ahhhh, isso sempre… Ficam pedindo para eu sair da frente, mas eu sempre explico que vamos poder ficar ali somente as três primeiras músicas e que eu me movimento não fico parado somente no mesmo lugar, mas mesmo assim já levei puxões de cabelo, tapa na cabeça e até cuspes.

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TU - Gostaria que você falasse um pouco das agências de fotojornalismo, que vêm pagando misérias para os fotógrafos que vendem suas fotos. Existe uma alternativa para isso?

 

FH - Infelizmente, devido ao excesso de “profissionais” na área e ultimamente do número de sub agências, da grande concorrência sofrida com o material disponibilizado pelas assessorias de imprensa dos clubes, casas de shows e artistas que cedem as imagens gratuitamente… Isso dificulta muito o mercado, mesmo as agências vendendo as imagens a preços bem irrisórios. Como alguém vai pagar um valor alto em uma imagem se tem alguém cedendo ela gratuitamente? Sempre existe uma alternativa, mas não são todos que conhecem os caminhos ou até mesmo muitos têm preguiça de procurar pelos caminhos. E isso eu procuro ensinar nos meus workshops.

TU - É possível trabalhar de forma independente de alguma agência?

FH - Possível é, mas é bem complicado, já que para você ser credenciado para uma partida de futebol, onde exigem alguns pré-requisitos, onde os principais é você ser um repórter fotográfico, é você estar ligado a algum veículo de imprensa... Já na fotografia de shows, não exigem você estar ligado também a um veículo de imprensa. 

TU - Cite um jogo histórico que você fotografou e nos conte o motivo.

FH - Bem, não sei se foram jogos históricos, mas foram os que eu julgo serem marcas na minha carreira. O primeiro é o jogo na Vila Belmiro, da final da Copa do Brasil de 2015, já que eu estava apenas começando na época e foi um jogo que me marcou pela importância. E o segundo, foi a final da Copa América no Maracanã em 2019 por ser uma final de copa continental, por ser meu primeiro jogo no estádio e por ser uma grande vitória pela dedicação que tive nos últimos cinco anos fotografando futebol. Poucas pessoas sabem o quanto me dediquei e ainda me dedico para estar sempre evoluindo. Vários colegas já me chamaram de louco por eu sair de Santos e ir fotografar em São Paulo, indo de metrô, ônibus, carregando todo o equipamento... Mas a vontade de fazer o que eu gosto e bem feito me levou a toda a dedicação para que eu vença, venha melhorar cada vez mais e me destacar no mercado.

TU - E qual show que você mais se orgulha em ter feito, até hoje?

FH - Eu já fotografei diversos festivais e artistas de renome nacional e internacional, mas um show que me marcou foi o do Rolling Stones em 2016, no Estádio do Morumbi, onde eu estava bem triste por minha mãe. Ela tinha falecido alguns dias antes e consegui na hora superar e fazer um belo registro de uma das mais importantes tantes bandas da história do rock mundial. Já tinha fotografado eles em 2006, no Rio de Janeiro, no aniversário da cidade, mas dessa vez foi mais especial.

TU - Você faz ensaios femininos e ensaios em geral. Como você vê essa onda de ensaios à distância que as pessoas estão fazendo na quarentena?

FH - Para começar, eu não chamaria de ensaio, mas um trabalho talvez de assessoria à distância. Acho que talvez seja válido para fazer alguns registros, mas não é a mesma coisa de um ensaio onde você tem que dirigir a modelo, pensar na foto e executar. Já começa que, se o celular da pessoa do outro lado não tiver uma câmera razoável, o trabalho deve ficar um lixo. Também dificulta muito em análise de luz, por você não estar no local você não vai poder ver todas as perspectivas  que poderá explorar ou até mesmo usar seus flashs. Aconselho a só fazer quem precisar registar algo que não terá como fazer novamente no futuro. Talvez mais para ensaios de gestantes, recém nascidos… Em outros casos, se eu fosse o cliente, não faria...

TU - E em relação aos assédios sexuais em sessões femininas, esse problema tem solução?

FH - Deveriam ter leis mais rígidas e as modelos deveriam expor quando isso acontecesse, para que outras não venham cair no futuro. Isso, infelizmente, é um coisa que depende muito do caráter do fotógrafo que a modelo está contratando.

TU - Para finalizar, gostaria que você me contasse: se pudesse um dia fotografar um jogadores de futebol que já parou e uma banda que não existe mais, quais seriam?

FH - Jogadores que não atuam mais, com certeza, seriam Pelé e Maradona, principalmente. Dos que ainda jogam, faltam Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi (apesar de que estava em jogo dele na Copa América, mas ele foi expulso no primeiro tempo)... Já na música, gostaria de ter fotografado os Beatles, Jimi Hendrix e que ainda estão atuando AC/DC e Guns & Roses com a formação clássica.

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