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TU ENTREVISTOU
MAURO MAC

Quem acompanha as redes sociais do Santos F. C. já viu as artes cheias de criatividade que estampam o feed. São escalações com referências que remetem à cultura pop, posts temáticos referentes a datas e assuntos importas e, claro, homenagens aos ídolos do presente e do passado. Tudo isso com textos inteligentes e artes brilhantes, sempre creditadas ao “estagiário”. O que muita gente não sabe que o tal “estagiário” tem nome e muuuuuita experiência. Maioria das idieas brilhantes das redes sociais do Peixe saem da cabeça do publicitário Mauro Mac, que tem uma carreira premiada por agências de Santos e São Paulo, e, junto com a equipe do Marketing do Santos, transformou a cara do clube na internet. Confira nas próximas páginas um pouco mais da história desta mente criativa.

TU - Fale um pouco da sua carreira, por onde você passou, prêmios...

 

Mauro Mac - Em maio, dia 14, completo vinte e sete anos de profissão. Sou publicitário, diretor de arte. Comecei com 16 anos, em Santos. Meu primeiro registro em carteira foi lá, como arte finalista e, dali em diante, comecei uma carreira que vai até hoje, duradoura, graças a Deus! Passei por algumas agências em Santos, como a Companhia Santista, Estalo, Fenômeno, Samba, DS4, que depois virou DSPA, e depois fui para São Paulo. Conquistei prêmios, foi o que me alavancou e estou até hoje em São Paulo. Fiz alguns cursos pontuais. Frequentei uma escola de desenho artístico, no Canal 2. Fiz um ano de desenho artístico e um ano de desenho publicitário e, por coincidência, foi o que segui na minha vida inteira. Eu tinha uns doze anos, alguma coisa assim. A minha escola sempre foi a prática, desde moleque, na agência. Isso me prejudicou um pouco na parte de didática, da escola. Eu tinha que faltar na aula, no Ensino Médio, para ficar na agência trabalhando até mais tarde. Isso me ferrou um pouco nesse sentido, mas eu segui e nada me ensinou mais do que o dia a dia. Na época que trabalhei em Santos, com o Rafa Macia (filho do jogador Pepe), tinham prêmios muito legais, chamados FestVideo e FestGraf. São prêmios da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda) de Ribeirão Preto, focado no interior de São Paulo e no Litoral. E nós ganhamos alguns prêmios. Isso foi me alavancando, até chegar no momento chave da minha vida, que foi 2001... Quer dizer, em 1999, eu estava tentando o Prêmio Apple, fui finalista e em 2000 não consegui nada. Em 2001, entrei com duas peças finalistas e, com uma delas, conseguimos ganhar. O Prêmio Apple, é como uma Copa do Brasil, dá uma vaga na Libertadores. Então, eu tinha uma vaga garantida no Festival de Cannes (na França), como integrante da delegação brasileira, a Young Lions Brazil Creativity Program, é um projeto que tem todo ano, até hoje, onde selecionam sete diretores de arte, sete redatores e um planejamento, para representar o Brasil no Festival de Cannes. O Projeto Young é feito para análise de pastas, analisam a pasta de alguns profissionais que estão se destacando e elegem os caras para representar a delegação brasileira. Consegui a vaga pelo prêmio Apple, pois por pasta, eu não conseguiria. Por mais que o mercado santista de Publicidade seja legal, não tem como chegar perto do mercado de São Paulo. Eu estava no meio de pessoas de São Paulo, Rio, Bahia, outros lugares que são fortes nesse meio.

TU - Qual a diferença do trabalho que você teve em agências, com o trabalho que você executa hoje, no Santos F.C.?

MM - Trampar no Santos foi a realização de um sonho. Era um projeto que eu tinha há anos. Sempre senti uma carência no mercado de futebol, na parte de comunicação, marketing, a falta de criatividade, engajar público, torcida… Eu entrei e no começou fui designado para cuidar mais da parte institucional, que também era uma área bem carente. O Santos não tinha branding, não tinha manual de marca, não tinha um manual de prospecção, que temos hoje e usamos para captar patrocinadores, com números, pesquisas... Então, fui fazendo devagar e, desde 2018, quando entrei, fomos crescendo e, com a chegada do Diretor de Marketing, que conseguiu unir de forma inteligente os dois setores mais importantes de marketing e a comunicação. Foi algo que eu pedi para ele, inclusive, e fomos formatando uma base forte, para captação de patrocínio e idealização de uma forma de comunicação integrada. Isso está dando resultado. São três anos de Santos, e eu estou extremamente realizado. Mas foi um desafio enorme, pois saí da Publicidade. Foram anos de mercado publicitário. Fui entender o mercado de futebol, fui conseguir colocar algumas coisas que aprendi em Publicidade, principalmente na parte criativa, para envolver torcedor, levar entretenimento, pois rede social não é só informação, você tem que entreter o público. E nesse tempo conseguimos atrair não só o santista, mas também torcedores de outros clubes, muitos torcedores vêm de outras torcidas, que gostam da nossa abordagem, e o torcedor do outro clube acaba interagindo, e isso é muito bom para nós, nos traz um crescimento. O crescimento do Santos nas redes sociais é incrível. É mais do que um prêmio para mim. Para o clube é algo bem bacana e estamos sempre ali no Top 5 ou Top 3 de redes sociais de futebol. Já ficamos em primeiro lugar, principalmente no período da final da Libertadores da América, e isso é muito bom, atrai patrocínio.

TU - Quem está envolvido na equipe de Marketing do Santos?

MM - A equipe de marketing, como ela foi integrada, tem mais ou menos umas quinze pessoas, diretamente envolvidas no processo de criação e desenvolvimento, no dia a dia. E é um processo bem democrático, colegiado. Nosso diretor, (Marcelo) Frazão, é bem aberto às ideias, gosta de ouvir, se empolga. Ele gosta e ama o que faz. 

TU - E apesar de você ter toda essa bagagem no seu currículo, te incomoda o apelido de “estagiário”?

MM - De forma alguma! O estagiário no futebol é um rótulo, foi criado. Antes, quando nada disso de redes sociais existia, isso ficava na mão de uma pessoa, que era um estagiário. Mas não me incomoda. Quando cheguei no clube em 2018, para fazer a parte básica que o clube não tinha, de branding, manual de marca e prospecção, fui aos poucos encaminhando meu trabalho para as redes sociais, na parte de comunicação, com a integração dos departamentos. Foi aí que comecei a ganhar mais destaque com o meu trabalho, referente à criação. Começamos a fazer a escalação temática. Lembro que a primeira foi a escalação na Copa do Brasil, quando o Santos foi jogar contra o Altos, do Piauí. Estudando o estado do Piauí, resolvi fazer a escalação em arte rupestre! E isso caiu super bem na mídia. Os próprios torcedores do Altos elogiaram. Isso acabou rendendo mídia espontânea e, a partir daí, começamos a pautar nosso trabalho e a fazer isso sempre. Fizemos depois do dia Mundial do Rock, que foi um sucesso. Fizemos posts com paródias de capas de discos famosos, os jogadores com figurinos de roqueiros. Escalação de Carnaval, Festa Junina, Halloween, isso gerou mídia espontânea o tempo todo.

TU - Muitas vezes o Santos vence e automaticamente já sai um vídeo, falando da vitória. Esse material todo já fica pronto, preparado, muita coisa boa em todo caso, já deve ter ficado de fora de ser postado, pelo fato do Santos não ter vencido algum jogo. Dói muito o coração, quando vocês fazem um trabalho desses e esse material não pode ser veiculado por conta do resultado?

MM - O Peixão Musical, o vídeo pós vitórias, só é postado com vitória, obviamente. Já fizemos muitas coisas que foram pra gaveta. Às vezes reaproveitamos, quando vence o próprio adversário, em outra ocasião, mas muita coisa vai para a gaveta e não sai mais. O Peixão Musical é algo bem especial, porque discutimos bastante durante o pré jogo. O YouTube tem uma política de veto (strike) no caso de usar música internacional, e sempre tentamos pautar nas músicas nacionais. Sempre que vamos jogar o jogo e que o clima é bom para poder dar uma comemorada, às vezes nós nem pensamos nisso, mas às vezes está em alguma crise, não cabe no momento dar uma extravasada. Como o momento que vivemos hoje, de crise e pandemia, não tem muito o que comemorar. 

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TU - Das campanhas e posts que vocês fizeram, qual você mais gostou, qual te marcou mais e qual você menos gostou de ter feito e veiculado?

MM - Gostei mais do Dia Mundial do Rock. Saiu em vários portais, rendeu muita mídia espontânea, todo mundo elogiando. Saiu nos canais de TV, SporTV, ESPN Brasil, foi muito bom e legal. Halloween foi bacana, rendeu muita mídia, coloquei todo mundo na escalação de máscara de filme de terror. Até os jogadores gostaram, repercutiu internamente… E teve o Oscar. Do Oscar foi foda, foi um trampo alucinante de hora versus máquina, pois era muitas manipulação de imagem, tivemos que pegar todos os posteres dos indicados ao Oscar de 2019. Tivemos que adaptar todos para algo que tinha no clube. Então, nós tínhamos os cartazes adequados às nossas realidades, no universo Santos FC e todos os filmes indicados. Isso repercutiu muito, é um trampo que tenho bastante orgulho. E não gostei de fazer, obviamente, as mortes, os ídolos que nos deixaram. Fizemos um trabalho bem legal para o Coutinho, o gênio da área. Fizemos uma homenagem bem bacana, uma arte bonita… Corta o coração fazer.

TU - Embora você não cuide da rede social, não tenha acesso, vocês geram as artes, as imagens, os conteúdos. O Santos pensa em alguma coisa em relação aos comentários que aparecem nos posts cheios de raiva, como homofobia, sexismos ou racismo?

MM - O Santos tem uma linha muito democrática internamente e externamente. O torcedor pode falar o que quiser, mas não se ele disser algo que vai além do bom senso e das nossas leis. Mas a resposta vem no post contrário. A resposta do clube é sempre levantar a bandeira. Temos tanta discórdia entre amigos que são intolerantes, brigamos, perdemos amizade, mas a resposta sempre vem com post a altura, seja na questão da homofobia, racismo, etc. E quando a resposta é à altura, isso é um consenso em comum, nós não toleramos torcedor preconceituoso e também, não toleramos funcionários preconceituosos. Não cabe. A equipe toda tem esse consenso em comum, o tempo inteiro.

TU - Em relação aos números, os do Santos, em redes sociais são impressionantes, ficando quase sempre no TOP 3 do Brasil, junto com Flamengo e Palmeiras, dois clubes de massa. O Santos não tem uma torcida grande, é um clube que está em uma cidade de 500 mil habitantes. Qual a mágica para conseguirem isso?

 

MM - Relevância, o clube sempre teve. É o clube do Pelé, bi-campeão do mundo, paramos uma guerra por dois dias... Isso sempre teve. Relevância internacional. Ela só foi maltratada, esquecida e colocada de lado. Nós potencializamos essa imagem nas redes, junto ao torcedor, para resgatar o orgulho, tanto que quando fizemos o branding “O Maior Brasileiro do Mundo”, foi baseado em pesquisa, junto ao France Football, Jornal A Marca, algumas pesquisa que tínhamos em mãos, de relevância mesmo, de “qual clube braisleiro é mais lembrado lá fora”, e é o Santos. Só colocamos isso em prática e naturalmente o retorno veio. Na defesa ao branding que fiz ao Presidente e ao Conselho, fiz um book com todos os números e estatísticas para defender o branding e, em uma das páginas, estava uma frase do Guardiola: “Não importa quantos títulos você vença, importa o impacto que você causa”. E o Santos fez isso, tem uma relevância gigantesca por tudo que fez lá fora, causou um impacto que dura até hoje. 

TU - Jogadores de futebol recebem propostas de outros clubes quando estão se destacando. Você já recebeu propostas para deixar o Santos?

MM - Estou feliz no Santos. Estou tranquilo, de boa e pretendo continuar no Santos. Mas temos muito contato com outros clubes, de elogiarem o nosso trabalho. Pessoal do Sport, Cruzeiro, Atlético, Vasco... No Vasco, tenho um amigo que é parceiro, estamos sempre trocando ideias. Tenho relação com designers de outros clubes, principalmente do Vasco e Fluminense, que são dois que eu admiro. Estão com um trabalho bem legal. Existem outros clubes que admiro, mas não tenho proximidade. No LinkedIn, tem sempre um comentando o trabalho do outro. Há um respeito mútuo nesse meio, não tem adversário. 

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TU - Você tinha o Blog do Santos, no portal do Globo.com, como surgiu essa oportunidade, como foi?

MM - Legal essa pergunta. Tinha até esquecido dessa fase da minha carreira. Foi a fase que eu mais me aproximei do clube. Eu tentei ser jogador no passado, e aí voltei com essa questão do blog, que foi em 2007, na Globo. O globoesporte.com tinha um projeto de fazer blogs de torcedores. Era uma coluna destinada ao torcedor. Eu entrei num processo seletivo, fiz um post, uma matéria, entrei e fiquei por uns dois anos. Mas foi muito legal. Comecei a fazer análise de jogos, fiz quadros s interessantes, que deram origem ao Bloglorioso (outro blog que o Mauro teve). Foi foda! Isso deu origem a algumas coisas, como a ideia da máscara do Neymar (que depois foi copiada e o Neymar usou na comemoração de um gol contra o Colo-Colo, na Libertadores de 2011 e foi expulso). A fase do blog foi a que me colocou no Santos. Fiz um vídeo com um amigo meu, em homenagem aos 96 anos do Santos (faz tempo!), coloquei no blog e bombou pra caramba. O (José Carlos) Peres, que era superintendente do Santos, em São Paulo, na época do Marcelo Teixeira, entrou em contato comigo por e-mail falando que queria o vídeo, me chamou para visitá-lo e tomar um café. Foi aí que criei uma amizade com ele, e posteriormente, quando ele foi eleito presidente do Santos, ele me chamou.

TU - O Thiagão, da TU, falou que você tinha rádio online, que era sensacional, que tinha vinheta e tudo mais. Ainda existe? Ele quer no Spotify!

MM - Thiagão desenterrou! Eu tinha uma rádio online, sempre gostei, ouço a até hoje. Todas as rádios. Ouço uma rádio do Sul, de Porto Alegre, Continental. Sou fã! Ouço umas internacionais de rock, mas sempre gostei e sempre me imaginei trabalhando em rádios. Mas como estou na Publicidade, trabalhando no Santos, isso não vai acontecer tão cedo. Mas trabalhar em rádio seria muito legal, mas não na linha de frente, trabalhando na produção, nas vinhetas, eu acho do caralho trampo de rádio!

TU - Qual sua perspectiva para 2021? Para o Brasil e para o seu trabalho?

MM - Espero que tenha vacina para todos. Todos têm que se vacinar. É um direito. Todos imunizados, para termos uma perspectiva melhor, sair de casa, trabalhar, conviver com os amigos. Espero que tenhamos vacina eficaz contra o vírus, para visualizar um futuro melhor. A respeito do Santos, continuar o trabalho, agora que estamos com o uniforme quase completo. Não está completo, mas vamos completá-lo até o final do mês, ou mês que vem, se Deus quiser. As receitas de publicidade e de marketing estão em dia. É um trabalho que temos, é um trabalho que vamos entregar. E o resto é lucro, meu amigo!

TU - Alguma mensagem final?

MM - Na publicidade aprendi a me reinventar, vender a mesma coisa ano a ano, e tentar vender de formas diferentes. É algo que temos que levar para o clube, fazer tudo igual, só que de forma diferente, mais efetivo, mais potencializado, com maior alcance… Esse é o desafio que me faz vivo, a publicidade nos traz isso. O desafio de todo dia, fazer algo diferente. 

Conheça melhor o trabalho Mauro Mac em behance.net/mauromac

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