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TU ENTREVISTOU
MARIA SIL

Como é bom conhecer novos artistas daqui da nossa região. Ainda mais quando esses talentos não são somente cascas vazias, sem conteúdo. A Maria Sil é uma artista com muita história para contar. E para cantar. Sil canta com poesia sobre temas que fazem parte da sua trajetória de vida. Transvestigênere e vivendo com HIV/Aids na Baixada Santista, uma região extremamente conservadora, ela faz da sua música uma ferramenta de resistência. Conheça um pouco da história e do trabalho da Maria Sil nas próximas páginas da TU.

TU - Primeiramente, queria dar os parabéns pelo seu trabalho, Sil. É um prazer estar falando com alguém com o seu talento aqui da região. E eu queria começar perguntando como você entrou para este mundo das artes. Como foi a sua trajetória?

 

Maria Sil - Primeiro, foi o Teatro. Assim, o básico, da criança que vai fazer aulas de teatro nas Oficinas Pagu. Esse foi o meu primeiro contato com o teatro. Depois, eu fui buscar uma formação técnica. Fiz um curso técnico em Artes Dramáticas no Senac, que não é um “super” curso, mas pelo menos já trazia uma base de produção cultural, de você aprender as leis e os editais, entender quais os recursos são possíveis de acessar para a cultura no Brasil. E aí, isso foi desencadeando. Fui estudar em Pelotas - RS, na Universidade Federal. Fiquei quase dois anos. E lá fiz um semestre de Música. Foi quando descobri que eu tinha aptidão para o piano, uma coisa que eu não imaginava. Bem louca! Só fui estudar Música, não sabia nada, um dó, e descobri essa facilidade com o piano. Mas não concluí o curso. E de fato, em 2015, eu descobri minha sorologia reativa ao HIV e isso foi o meu divisor de águas da minha vida, no sentido que pensei: “Caraca, eu gosto tanto de música. Já tenho 24 anos e a vida é tão efêmera, muda tanto. Por que eu nunca fui atrás de estudar música, que me dá prazer?”. Eu sempre amei música. Sou uma ouvinte muito assídua. Desde pequena, eu aprendi com a minha mãe, a sentar e ouvir um disco, coisa que as pessoas de hoje em dia nem sabem o que é esse prazer de sentar e ouvir aquele álbum inteiro. Aí, eu prestei a prova para o conservatório Ivanildo Rebouças, em Cubatão. Acho que passei em 5º lugar. E ao mesmo tempo que comecei o estudo de piano ali, eu fui me musicalizando. Pois tem esta coisa que eu sempre questiono do Brasil, este fato da gente não ter acesso obrigatório, no Ensino Fundamental, à musicalização. E eu fui uma pessoa que só tive esta oportunidade aos 23/24 anos.

TU - E antes de fazer o curso de piano você não tocava nenhum instrumento?

MS - Não tocava nada. A única coisa que eu tinha, eram muitas letras guardadas e, meu processo de composição até hoje é assim, eu ouço melodias. Então, eu acredito que tinha uma predisposição que não foi aproveitada, porque não era obrigatório. Mas eu sempre ouvi sons, melodias, fraseados.

TU - E como foi que a música saiu do “estudo” para o “vou fazer um disco”?

MS - Foi em paralelo. Eu tinha acabado de voltar de Pelotas. Não queria voltar para lá, pois era muito longe. Já não tinha mais vontade de voltar. E como estava no Conservatório, estudando e se musicalizando o tempo todo, isso vai te sensibilizando e vai ativando algumas coisas. Surgiu uma letra e uma melodia. E no começo não era uma vontade de ser uma artista. Era uma vontade de gravar aquela música, que chama “Olhos Amarelos” e que fala da minha sorologia. Então, a vontade era em relação àquela música.

TU - Era uma vontade de colocar para fora...

MS - Era algo até muito ingênuo. Em relação ao tema, do significado de expor uma sorologia em território tão atrasado quanto é a Baixada Santista. E ingênuo em sentido de despretensioso. Era uma vontade de gravar aquela letra, aquela música. E depois, nasceu a vontade de gravar mais, fazer show... E eu sempre fui muito “cliente” do SESC, e o ápice era “um dia vou fazer um show nessa comedoria”. E fui indo, dentro das possibilidades, pois uma coisa que a gente descobre no meio do caminho é que, ser uma artista totalmente independente, não é fácil. Eu sou a minha própria produtora, minha gestora financeira, eu mesma vendia meus shows... Não tinha nada por trás.

TU - O que é impressionante, pois a gente vê o seu material e a qualidade é notável. A gente nota uma qualidade diferenciada nas músicas, não só pelas letras e na sua voz, mas na banda de apoio. E os clipes e as capas dos EPs são muito bem feitos.

MS - Eu sou filha de uma professora, então nesse caminho que eu fui entendendo o quanto a música é cara. Até comprar um instrumento. Por exemplo, meu piano quebrou há um ano e eu estou sem piano. E para você fazer algo bom, eu fui vendo o quanto aquilo era custoso. Então, eu vi que eu precisava aprender que eu tinha que, no mínimo, enxertar dinheiro nisso para eu não perder dinheiro e, depois, ganhar um pouquinho. Eu estava bem nesse momento quando veio a pandemia, aprendendo a ganhar um pouco (risos). Dentro disso, para ser justa, pelo amor de Deus, por trás de uma produtora ou uma artista, no caso sou eu, você vai ter a sensibilidade de ver com quem você vai trabalhar. Por exemplo, o primeiro EP foi produzido pelo Theo Cancelo e ficou ótimo. O segundo foi produzido pelo Dom Lino e pelo Gustavo Albuquerque, que também são músicos ótimos. Na hora de escolher instrumentistas, com quem gravar... Pois eu não fui uma cantora de barzinho aqui da região, nunca toquei na noite aqui, porque nunca nenhum espaço se abriu. Mesmo com trabalho autoral e saindo na mídia, nenhum restaurante ou bar se abriu para que eu pudesse levar um repertório, mesmo que cover. Mas a gente aí, na produção, você vai descobrindo. No audiovisual também, você vai encontrando pessoas que você vai gostando de trabalhar. E eu tenho que agradecer muito, principalmente a Hugo Vicente, que é minha artista gráfica que faz toda a identidade visual de Maria Sil. E, todo momento que há projeto que necessita de uma gestão de redes, ela vem. Lançamento, lançamentos de shows... É um momento que é importante ter alguém mais engajada tecnicamente naquilo. Então, fui tomando esses cuidados durante o caminho. Eu prefiro não fazer um lançamento atrás do outro como alguns "coaches da música” pregam, que você tem que manter um ritmo de lançamento. Eu já abri mão. Eu não tenho dinheiro para fazer esse ritmo de lançamento e vou fazer no tempo que for possível para que aquilo fique bom. Perdi uma pressa. Claro que eu quero gravar um álbum, mas quero que seja massa, quero que todo mundo esteja ganhando bem para fazer parte daquilo. Antes, eu tinha essa pressa, mas hoje passou, com maturidade. Não me importa se eu for gravar meu primeiro disco com 29, 30 ou 35 anos.

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TU - E a gente ouve suas músicas no Spotify e vê os vídeos no YouTube, e são experiências diferentes. Você vê os seus clipes como um complemento da sua música?

MS - Sim. Eu vejo como camadas. E para mim, não teria sentido gravar um clipe que fosse só um vídeo para divulgar a música. Para mim, o videoclipe pode ser arte também. E eu até li uma vez uma tese bem da hora para quem gosta  de música, que é a História do Videoclipe Brasileiro. E o autor faz umas análises sobre Manguebeat, mostrando como os clipes também foram construindo a estética daquele movimento. Então, para mim, ele tem que acrescentar algo, trazer novas camadas para aquela música.

TU - Você citou o Manguebeat, que foi um dos grandes movimentos da música nacional. E sua música tem um pouquinho de outro movimento que foi o Tropicalismo. Quais são as suas referências na música, suas influências?

MS - É muita gente. Começa lá pelos sagrados tropicalistas: Gil, Caetano, Gal, Rita, Bethânia (que não se diz tropicalista)... Essa galera é muito prazeroso sentar e ouvir um disco inteiro. Coisas que minha mãe ouvia. Milton, muita MPB e eu fui internalizando. Foi a minha base. Mas também referências como a música baiana. Eu amo axé music, amo instrumento percussivo e isso vai me moldando. Chico César, Paulinho Moska, indo para um caminho mais recente... A Pitty para mim é uma mega referência, tanto musical quanto de letra. Pois para mim, além da melodia, a letra sempre foi muito importante. Eu me considero uma letrista, que foi estudar um pouco de música para minimamente se viabilizar.

TU - O que é importante, né? A música tem que passar uma informação. Pode ser de uma forma mais sútil ou de uma forma mais direta, mas não dá para ser alienada. A própria Pitty que você citou, o pessoal reclama que ela se politizou muito, mas ela já tratava de temas importantes desde quando ela surgiu...

 

MS - Aquele tweet dela é maravilhoso. “Gente, vocês não entenderam nada até hoje”.

TU - E, exatamente nessa linha, suas letras abordam diversas questões como orientação sexual, expressão de gênero, violência urbana sofrida pelas pessoas LGBTQIA+ e sua vivência como soropositiva de HIV. E você citou que não tem as portas abertas aqui na Baixada. Você acha que é por causa do que suas músicas falam?

MS - Não. É porque eu sou travesti. Em uma cidade que votou 81% no Bolsonaro no 2º turno. Pois quando eu conversei com pessoal de bares era para cantar repertório de bar, cantar covers, para fazer mais uma renda. E vai chegando nessa camada de como a empregabilidade, não só formal, mas até na área da arte para uma travesti, vai ficando inviável. Nunca! Nunca rolou. E seria, como falei só para covers e não para divulgar música autoral. Até porque, não sei por qual motivo, mas há uma resistência local ou regional para se ouvir música autoral. Nos últimos anos, são poucos artistas.

TU - E você tem medo que com esse pessoal que está no poder agora, dessa mentalidade do governo mais reacionária, esse tipo de atitude fique cada vez pior ou você tem esperança que as coisas possam mudar em 2022?

MS - Eu acho que nada está ganho, que está tudo no escuro sempre. E, incrivelmente, mesmo com mais de 500 mil mortos, é uma disputa. Porque o Brasil não olha para as suas feridas. Ele vira as páginas e passa por cima delas de forma muito avassaladora. Então, ele passa pela escravidão para a abolição sem reparação nenhuma ao povo negro, sem prender ninguém, por exemplo. Ele passa da ditadura militar para a abertura democrática anistiando os dois lados. E ele vai passar por esta pandemia, provavelmente, como se nada tivesse acontecido. As pessoas vão se vacinar, a economia vai voltar a crescer, os empregos voltar a surgir e aí há um grande risco desse genocídio não ter nenhum peso na hora do voto.

TU - De passar em branco, né?

MS - Passar em branco. Para mim é uma disputa totalmente em aberto. E que eu, enquanto artista, quero colaborar. Já queria colaborar e agora, principalmente, depois de perder minha mãe, vítima da COVID.

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TU - Meus sentimentos, Sil. Nós aqui da revista também tivemos pessoas próximas que faleceram. É algo complicado, pois para onde a gente olha, vai ter gente que foi embora. “Foi embora” não, foi tirada da gente.

MS - Eu pretendo, daqui 20 anos, estar falando sobre isso. Pois não é possível, mesmo sabendo como o Brasil foi construído e como se dão esses processos, não é possível que as pessoas vão passar por isso como se fosse natural. O tempo histórico é implacável. Então, eu conto muito que, nos livros de História que as crianças vão estar estudando, vai estar o genocídio de 2020/2021.

TU - Tomara que a gente consiga passar isso para que as pessoas vejam que foi uma coisa séria.

MS - Tem uma música minha, de 2017, que se chama “Lacre In Tristeza”. E ela tem um verso que é assim: “Lacre in tristeza / Há lugar para dor? Eu não sei / Cotidiano em fragmentos / Tão fake quanto a operação”. Era a Lava Jato (risos). Ninguém entendeu, mas está aí. O tempo histórico vai mostrando cada vez mais o que foi e para o que foi. E que era fake. 

TU - É bem legal isso. Eu estava escutando as suas músicas, para chegar estudado na entrevista. E tem uma música sua, que você fez logo no começo da pandemia, “Carta para as minhas irmãs”, e parece que você está conversando com a pessoa que está ouvindo, falando de temas atuais, coisas que estão acontecendo.

MS - Eu acho que quando o artista vai seguindo, ele vai encontrando sua sonoridade que mais lhe agradam. Eu fiquei muito feliz com essa música. Produção musical do Dom Lira e do Gustavo Albuquerque. Eles produziram juntos. E tudo feito a distância. Até a voz, eu gravei aqui de casa. Cada um no seu cantinho, produzindo essa música com uma vontade de se expressar.

TU - E quais são os seus planos de futuro? Eu vi que você estava com o financiamento coletivo do documentário “Mãe - Um olhar sobre a maternidade trans”.

MS - O filme “Mãe” está em finalização. Foi dirigido por mim e pela Thays Villar. A gente pretende lançar este ano, que foi gravado de forma totalmente remota. Nós entrevistamos quatro mães e acabou virando um longa. Nós arrecadamos parte da verba pela campanha de financiamento coletivo e na sequência através do edital municipal de Santos, feito através com recursos da Lei Aldir Blanc de apoio à cultura. Com a somatória dessas duas verbas, a gente viabilizou o filme. Ele não tem uma data para ser lançado, mas está perto. A morte da minha mãe alterou algumas coisas. Eu pedi para a Thays, ela concordou.

 

TU - E projeto de lançamento de música nova?

MS - Sim! Eu estou lançando uma música chamada “Medo Azul”, que é uma composição minha com a Socorro Lira, que foi algo inacreditável para mim. Até agora não consigo acreditar que eu compus uma música com a Socorro Lira. Ela é muito generosa. E nós compusemos a distância. Eu fiz uma letra, um campinho harmônico e falei na cara dura: “Sou sua fã”. Ela gostou. Ela reorganizou, acrescentou, fez outras variações e devolveu. E falou: “Grava”. E foi. Convidei a Amanda Gasparetto para fazer a produção musical. Convidei a Socorro para fazer o vocal e a Juliana Soul'za, que é uma cantora daqui e que tem uma das maiores vozes que eu conheço, para também cantar com a gente. E chamei a Simone Sou para fazer a bateria da música e a Stephanie Borgani para o piano. Gravamos praticamente tudo no remoto. Só a minha voz e a da Juliana que foi em estúdio. Com videoclipe produzido pela Orvalho Filmes. A música é uma reflexão sobre a pandemia, uma provocação.

TU - E para finalizar. O que você tem para dizer para quem, em 2021, ainda não conhece a Maria Sil?

MS - Eita! Que pergunta difícil. Um convite para conhecer o trabalho, ouvir o som, a letra... Venham me conhecer! O artista faz para o público. Espero que as pessoas ouçam e vejam o que a gente está dizendo e o que a gente quer dizer.

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