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BIA MERLIN

Existe uma serenidade evidente ao conversar com a Beatriz. Ou Bia Merlin. Se você procurar pelo perfil dela no Instagram, verá que ela leva uma vida tranquila. Um pouco de praia aqui, meditação ali e yoga acolá. Ela nasceu em Santos. É caiçara nata, como ela mesma disse. Gosta da praia e do pôr do sol, aquele laranja que pinta o céu da orla santista e brilha no cabelo da jovem estudante de gastronomia, como um extensão do sol se pondo. “Me formo ano que vem, mas como sou inquieta, já fiz técnico em Farmácia e em Nutrição. Amava Nutrição, até entrar no curso de descobrir que eu era obrigada a fazer comidas sem vida e sem inventividade. Terminei o curso e fui para Gastronomia, extravasar meus sabores”, conta de forma convicta.

 

Bia mora com a mãe, a avó mineira e avô “italianado”. Quer mistura mais gastronômica que essa? Mineiro e italiano!? “Affff, comida italiana é o meu pecado favorito!”, conta aos risos. E me confessou que tem planos de morar em São Paulo. “Quero aprender com os restaurantes de lá (São Paulo) e encontrar minha vertente. Lá existem restaurantes para todos os gostos e bolsos e isso que me deixa louca!”. E completa: “Quero passear pelas culturas de cada um e me encontrar em algum deles, para aí eu pensar em montar o meu restaurante”. E Santos, como fica nisso? “Santos tá precisando de mais restaurantes nos moldes de São Paulo, então trazer experiências sólidas de lá com a minha cara e com a cara caiçara seria bacana. Mas são planos futuros. Primeiro, quero solidificar meus conhecimentos”, explica. Mas os planos são de montar o restaurante em Santos.

 

E a cidade de Santos foi o cenário das fotos, o Centro especificamente. Saímos de casa e o sol ainda iria demorar para dar as caras. Bia foi corajosa, encarou o ensaio em um sábado, os bares estavam se esvaziando. Seguranças olhavam de forma desconfiada a nossa movimentação, enquanto garrafas quebradas, copos de plásticos e papéis ficaram de herança da noite boêmia pelos cantos das ruas. Bia estava desconfiada ainda. Ficar de sutiã e calcinha (meio shortinho, é verdade) no meio da rua, exigia um pouco de coragem. Mas ela foi se esquentando e logo sentiu-se como se estivesse na praia. Me confessou amar fotos, tanto atrás da câmera, quanto em frente às lentes. Além disso, ama ler, coisas relacionadas à espiritualidade, nutrição, viagens e, claro, vinhos e gastronomia. Essa espiritualidade transparece a paixão pela natureza. “Tempo livre pra mim é sinônimo de natureza. Ficar sem sol, mar, mato e cachoeira por muito tempo, pra mim, é castigo!”, conta.

 

Bia é sincera, responde rápido, elabora as respostas que dá e fica pensativa. Admira a própria coragem, explícita no ensaio que fez conosco e curte a criatividade. Deve aparecer muito nos pratos que cria. Só acredito vendo (provando!). Em tempos de ódio, me confessa detestar tirania e falta de empatia. Apropriado, eu acho.Tempos difíceis para ser brasileiro. Conversa vai e conversa vem, ela me surpreende com quantos anos ela tem realmente. “Vinte e três”. Não parece, não fisicamente, mas sim pela desenvoltura em conversar e pensar. Não duvido que isso venha de todas as formas que ela busca equilibrar a vida, com o contato da natureza, com meditação e yoga. “Yoga apareceu em um momento complicado e conturbado da minha vida. Tava cansada de procurar paz e equilíbrio por fora… por ego. Decidi procurar dentro de mim, lá no âmago e tudo fluiu melhor. Me ensinou demais sobre autoconhecimento e sobre meu eu sagrado, principalmente a me respeitar e respeitar aos outros”, explica. E conclui: “Foi uma época muito transformadora”.

 

Bia é agridoce. Tem as convicções e a coragem, que acabam contrapondo com a bondade e com a busca por paz incessante. Leva uma vida em banho maria. Tranquila, descarta as coisas ruins e conserva os bons sentimentos, em uma panela rica em sabores e cores. Sua vida tem aroma de um café da manhã delicioso, daqueles que tomamos em hotéis, com o sol laranja entrando pela janela. Bia mistura todos seus amores, como escrever, gastronomia, fotos, natureza, vinho, tempera tudo com suas vontades e, como uma chef de cozinha, espera o prato ficar pronto. Uma hora será servido e a vida para ela será um banquete delicioso.