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TU NOS OUVIDOS
ROCK PARA LER
POR FERNANDO DE SANTIS

Há 3 anos, em São Paulo, rolou uma coisa muito esquisita. Na noite de 08 de outubro de 2018, no estádio do Palmeiras, o cantor Roger Waters, baixista e um dos fundadores Pink Floyd, foi vaiado por uma parcela dos seus próprios “fãs” quando expôs no telão sua posição sobre o então candidato Jair Bolsonaro. Coloquei aspas, e colocaria muitas outras, na palavra fãs, pois quem conhece e acompanha a carreira do artista não poderia se surpreender com a posição política dele. Ela sempre esteve lá, super exposta nas letras de músicas como Another Brick on the Wall ou Money. São essas pessoas que acreditam que música (ou arte em geral) e política não se misturam.

Afinal de contas, quantas vezes você já ouviu alguém falar que tal banda era legal antes, quando não ela se metia com política? O mais engraçado é que a pessoa que reclama disso, geralmente só o faz quando o discurso da banda ou do artista começam a conflitar com os ideais que ele defende. Mas por mais que muita gente ache que nós estejamos vivendo em mundo de fadas, o mundo tá aí todo cagado. E tem muita gente falando verdades através da música.

E você deve pensar logo no Rap ou no Punk Rock, por exemplo, que são estilos musicais onde o protesto contra o sistema e as mazelas da sociedade são quase características básicas. Tanto no exterior como aqui no Brasil, nós temos milhares de grupos para citar. No Rap, por exemplo, não teríamos como deixar de fora Os Racionais com Fim de Semana no Parque, com um retrato sobre a diferença entre os manos da quebrada com os playboys nos seus carros importados num fim de semana por São Paulo. A diferença entre as infâncias nestes dois cenários, criminalidade, exposição à violência. Sabe onde isso aparece também? Em This is America, do Childish Gambino. Uma música é de 1993, a outra é de 2018. Uma se passa na periferia de São Paulo, o outro nos EUA, mas a desigualdade social entre negros e brancos é a mesma. E no Punk Rock, podemos falar por exemplo de Você, de Dead Fish. Durante a música inteira você é levado a acreditar se tratar de uma canção de amor ou pé na bunda, mas ela fala do relacionamento nada saudável que nós temos com o dinheiro. Também podemos falar de London Calling, do The Clash, onde a banda canta sobre diversos temas como violência policial e o sempre iminente perigo de uma guerra nuclear nos anos 80.

 

Falando em guerra, tá aí um tema que sempre rende músicas com teor político. E geralmente contra ela. Porque quem gosta de música não perde tempo fazendo guerra. Em Fortunate Son, John Fogerty colocou para fora toda a sua frustração de estar sendo chamado para uma guerra que ele não queria lutar. E hoje nós temos uma das músicas mais fodas do Creedence. O Black Sabbath também expressou sua preocupação com a possibilidade de a Inglaterra participar da Guerra do Vietnam compondo War Pigs. E a banda formada por armeno-americanos System of a Down protestou contra a Guerra do Iraque em diversas músicas, mas a mais famosa delas com certeza foi BYOB. E não posso esquecer War, do grande Bob Marley, onde ele transforma em canção o discurso de 1936 do imperador etíope Haile Selassie, na Assembleia Geral da Liga das Nações. Atualíssimo até hoje.

 

Guerras civis, ditaduras e conflitos internos também são fonte para que artistas tentem se expressar. Muitas vezes para apontar problemas internos, que muitas vezes acabam levando-os ao exílio, como o caso do Geraldo Vandré durante a Ditadura Militar. Depois de cantar Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, Geraldo teve procurar o abrigo fora do país. Era isso ou a provável morte na mão dos milicos. E muitos fizeram canções decepcionadas ao voltar do mesmo exílio e ver que nada mudou, como Chico Buarque em Apesar de Você. E guerras civis podem mostrar dois lados de uma mesma moeda. Se U2 cantou Sunday Bloody Sunday sobre o massacre de manifestantes ocorrido na Irlanda do Norte, a também irlandesa Cramberries compôs Zombie sobre os ataques à bomba do IRA (o grupo terrorista, não a banda) à civis em Londres. Um conflito onde ninguém saiu ganhando.

 

Violência policial? Rage Against The Machine com Killing in the Name e NWA com Fuck the Police. Além do uso da palavra fuck várias (mas põe VÁRIAS aí) vezes, a violência policial é o tema comum das duas músicas. Quantos George Floyds precisam morrer para eles acharem que música e política não se misturam? Quantas Ágathas e João Pedros precisam morrer? E o preconceito racial? Em 1986, a Legião Urbana fez um hino chamado Índios, quase uma reparação histórica sobre todas as cagadas que o homem branco fez contra os povos originários brasileiros. E em 2020, o nosso governo federal fez de tudo para acabar com a população indígena do Brasil. Quantos guajajaras, kayapós ou yawalapitis precisam morrer pra eles mudarem de ideia? E sobre os pretos, o que não faltam são canções. De vozes negras, como James Brown e o seu hino Say It Loud – I'm Black and I'm Proud, que tirou a palavra nigga do vocabulário do preto americano, ou de brancos como o Red Hot Chili Peppers em The Power of Equality, com frases dos Panteras Negras, ou Bob Dylan, com Blowin’ in the Wind, pedindo igualdade com poesia. Aqui no Brasil, temos músicas como A Carne, do Farofa Carioca, e Olhos Coloridos, da Sandra de Sá. A primeira falando como o preto é tratado como um produto de segunda linha no Brasil e a segunda do orgulho preto apesar de todo o preconceito com o cabelo e cor da pele.

 

Então, se você conhece alguém que acha que música e política não combinam, fale para ela parar para pensar um pouco e refletir. Que ela com certeza está enganada ou não está prestando atenção! 

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