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TU NOS OUVIDOS
ROCK PRETO
POR FERNANDO DE SANTIS

O rock é preto. Não, não estou falando do estilo Black Metal, e nem estou falando das camisetas pretas que os amantes do rock costumam ostentar em shows, bares e no dia a dia. Estou falando que se o rock tivesse uma cor, ele seria preto. 

O Blues até os anos 1930 era tocado sem eletricidade. Nas cidadezinhas, que ainda não tinham luz elétrica, era feito basicamente com violão, gaita, alguma percussão e eventualmente um piano. Acontece que os negros tiveram ir para as grandes cidades, para conseguir empregos. Lá encontraram a eletricidade e os instrumentos elétricos, como a guitarra. Nesse momento, o blues foi plugado na tomada e, como uma evolução natural do tempo, o estilo foi se desenvolvendo. Até que em meados dos anos 40, ganhou velocidade, swing e então nasceu o rock n’ roll. O pai do rock é preto, logo, o rock é preto!

Se pudesse citar três nomes que deram o pontapé inicial para isso tudo, eu diria que foram Chuck Berry (1926-2017), Little Richard (1932-2020) e Fats Domino (1928-2017), e das mãos (e cabeças) desses três pretos, nasceu o rock. O mais curioso é que com o passar do tempo, os brancos começaram a tomar conta do cenário, principalmente quando um branco, de Memphis, chamado Elvis Presley, surgiu. O cara era branco, com voz de cantores negros! Tava feita a confusão. Deixando a diferença entre Rock n’ Roll e Rock, de lado, afinal, ambos são descendentes do blues, os grupos brancos começaram a surgir. De Jerry Lee Lewis, Bill Halley, a Beatles e Rolling Stones, o rock foi ficando branco, e dominando de uma vez por todas o estilo musical.

Mas mesmo assim, os pretos continuaram levantando a bandeira do rock com o passar dos tempos. Nos anos 60, James Marshall Hendrix, de Seattle, fez o que os negros fizeram, em meados dos anos 40, e transformou o estilo novamente, reinventando a guitarra, com sons distorcidos, wah, psicodelia, improvisações, alucinações e fogo na guitarra (literalmente). O cara deu uma reviravolta no estilo e no modo de empunhar a guitarra, de atacá-la e tocá-la e tornou-se influente. Depois disso, a guitarra só sofreu uma reviravolta tão grande anos depois, com o Eddie Van Halen.

Na década de 70 apareceu o Thin Lizzy que tinha como seu líder, Phil Lynott, que era o vocalista, baixista e principal compositor da banda irlandesa. Outro preto transformando-se em influente no meio, no estilo que mais estava em alta na época, o Hard Rock. No final da mesma década, em Washington, surgiu a banda Bad Brains, de Punk / Reggae, que depois fez uma fusão com o Metal, transformando-os num dos pioneiros do Hard Core. Formada por negros, o Bad Brains lançou discos até 2012 e tá por aí no cenário.

Impossível falar do rock sem citar Michael Jackson e Prince. MJ depois deu uma quebrada para o pop, é verdade, mas tem muito material rock da época do Jacksons 5 e na carreira solo. Impossível não mencionar “Beat It”, do Michael, com o riff e solo de Eddie Van Halen.

Nos anos 90, apareceu no mercado o Living Colour (uma das bandas preferidas deste que vos escreve). Um quarteto de negros que tocavam (e tocam) pra caralho. Músicos, instrumentistas, que dominam seus instrumentos no ápice do conhecimento, fazendo um rock / metal / funk / soul / jazz, deixando os cabelos em pé! E surgiram todos coloridos, com roupas neon, de lycra e dreadlocks. Foi um soco na cara do cenário, com discursos políticos e de direitos iguais. Na mesma década, dos guetos de LA, surgiu o Body Count, fazendo uma mistura maravilhosa de Thrash Metal com Rap, liderada por Ice-T nos vocais. Estão na ativa até hoje, enchendo os palcos de negros e orgulho. E com um visual à la Jimi Hendrix, surgiu na indústria da música, Lenny Kravitz. Talvez o visual tenha trazido essa comparação, mas a habilidade e importância não são comparáveis. Porém, Lenny conquistou um lugar no mainstream, ao lado das grandes estrelas brancas da indústria musical, de forma merecida. Vale mencionar também William DuVall, atual vocalista do Alice in Chains, Howard Jones, ex-vocalista da banda de metalcore, Killswitch Engage, e Derrick Green, do Sepultura, que seguram a onda no cenário atual.

E o estilo que nasceu preto em meados dos anos 40 e foi engolido pelos brancos, porém, felizmente ainda tem boa representatividade dos negros e, a grande maioria deles, muito influentes. E talvez por ter esse sangue, o rock seja o estilo musical mais contestador, rebelde e forte no universo musical até hoje.

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